quarta-feira, 18 de outubro de 2017

A APICULTURA E OS INCÊNDIOS FLORESTAIS

O ano de 2017 ficará marcado para sempre como o pior ano da história de Portugal ao nível do número de colmeias perdidas e pastagem para as abelhas foi consumida pelo fogo, tendo havido inclusive a morte de apicultores a salvar colmeias.

Foto: António Gaspar
As alterações climáticas são reais e têm dado provas disso, sendo os apicultores os primeiros a senti-las, pois trabalham com insectos que reagem a factores ambientais que passam desapercebidos ao Homem, sendo cada vez mais difícil manter as abelhas vivas.

Os anos são cada vez mais instáveis ao nível meteorológico, afectando directamente as florações e estabilidade das colónias de abelhas, onde, ao contrário de antigamente, em vez de termos maus anos de produção pontualmente, começamos a ter maus anos regularmente.

Junto com todos os problemas directos e indirectos das alterações climáticas, temos o aumento do número de incêndios florestais de grande dimensão (acima de 100 hectares), incêndios que provocam a perca total de pastagem para as abelhas, reduzindo a diversidade floral se os mesmos tiverem uma elevada recorrência (período de tempo que voltará a mesma área a ser consumida pelo fogo).

Foto: Afonso Correia
Da mesma forma que a perca de pastagem sucessiva provocada pelos incêndios não é benéfica para as abelhas, o envelhecimento das áreas de pastagem também não é favorável à manutenção e equilíbrio das colónias.

Não sendo económica e ecologicamente possível manter as abelhas vivas com recurso a alimentação artificial, é tempo de nós apicultores passarmos a ter uma postura interventiva na gestão do território.
Não podemos continuar a ser meros utilizadores do território, passando desapercebidos a tudo e todos.

Além de um esforço em aprender a lidar com os incêndios, minimizando o risco das colmeias arderem, limpando uma faixa de pelo menos 10 a 20 metros em redor das colmeias (dependendo do tipo de vegetação, altura e carga combustível da mesma), havendo mesmo assim alguns casos mais extremos que temos mesmo de lavrar a terra em redor, temos também de nos expor e impor perante a sociedade.

Para isso, será importante no futuro, os apicultores fazerem parte dos grupos de trabalho com intervenção directa no território, apresentando propostas de gestão em complemento das que são apresentadas por outros sectores (ex. exploração florestal, conservação da natureza, etc.), favorecendo desta maneira o equilíbrio e manutenção das colónias de abelhas.

Foto: António Leitão
As associações de apicultores deveriam reunir-se com os associados e debater este problema, reunindo sugestões. Ao contrário de outros problemas no sector (doenças e pragas), que vamos conseguindo controlar individualmente nos nossos apiários, em relação à perca de colmeias e pastagem para as abelhas provocada pelos incêndios florestais, terá de ser uma acção conjunta, uma acção forte e sólida, pois sem abelhas e pastagem não há futuro para a apicultura.




Uma vez que a apicultura é o parente pobre da agricultura, não será uma tarefa fácil, contudo, se não formos nós próprios a lutar por isso, nunca será possível darmos o nosso contributo para que o sector apícola seja visto como um sector importante para a sociedade em geral.


João Tomé
...um apicultor pela apicultura...



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